Estilo de vida "saudável"?

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"Será que algum dia vamos compreender a profundidade desta questão? Será que futuramente vamos notar que o sintoma social virou por si só a doença?

Deixe-me explicar minha posição - na mais clara tentativa de não apontar o dedo para ninguém, mas com o eminente risco de hedonismo dada as proporções do tema.

O mundo fitness é um mundo de exposição - assim como muitos outros. Não é de hoje que as academias são feitas de vidros e espelhos e, já faz algum tempo, as roupas de ginástica passaram a ser cada vez menos confortáveis e mais, digamos, "mostradoras do corpo". As mídias sociais, a auto promoção (particular e coletiva) e o narcisismo desenfreado e inflado (selfies, espelhos de banheiro, vídeos de treino e força...) coroaram essa tal exposição. Tamanha é a ansiedade de conquista de um corpo que lhe proporciona status (um corpo que vale a apresentação e que "respira" um estilo de vida "saudável"), que personagens deste universo viram modelos. Modelo de corpo, de medidas e, sobretudo, de "vida".

Moças são tornadas musas e suas dicas regram a insatisfação corporal e a culpa naquelas simples mortais que trabalham, estudam, tomam sorvete e malham de vez em quando - porque, honestamente, a vida pede mais!

As musas tem seus perfis sociais repletos de seguidores e suas fotos transbordam likes. Seus cardápios, suas receitas, seus treinos e seus "belos dias na praia", são compartilhados entre aqueles que as invejam (aquela cobiça "do bem", sem o tão famoso "recalque").

Ok!!!

Isto posto e, reforçando que meu objetivo não é julgar quem quer que seja... Enquanto mulher, sinto uma profunda tristeza por ter meus valores reduzidos à qualidade do meu corpo. Sinto também desespero, por ver reforçado, dia após dia, o preceito de que a mulher deve seguir certos padrões estéticos e ser admirada para que seja, de fato, "feliz". Por fim, me preocupo, por notar o cultivo da valorização do corpo feminino como objeto e, mais ainda, de ser notado sob a ótica sexual de uma "saúde estética".

Enquanto profissional, nutricionista especialista em estética, me sinto só... Me parece que, nado na contra corrente simplesmente por não aceitar (e não estimular) a privação e por acreditar que comer é bom, é gostoso e faz bem!

Finalmente, depois de tudo isso, chego ao ponto que motivou a reflexão: vi, ainda ontem, que temos agora uma "musazinha" fitness. Pois é... Uma garotinha de 9 anos que alimenta um blog fitness - compartilhado e seguido em mídias sociais - sobre sua rotina de treino-e-tudo-o-mais. Posa em fotos, exibe seus "resultados" e, atenção aqui, por favor, seu "estilo de vida saudável".

Que dor no coração!

Não pelo treino. Se o faz bem orientado (seu pai é profissional da área fitness), no seu limite e por prazer, isso não cabe a ninguém discutir. Também não é pelo "estilo de vida saudável" que ela (e seus pais) escolhem levar: cada qual é dono do seu nariz e livre para decidir como seguir a vida.

Minha dor vem pelo exemplo que ela se torna. Pelas expectativas que disso decorrem. Pela consciência que, cada vez mais forte e mais cedo na vida, vemos arraigadas nas mulheres (nas meninas). Pela falta da bela liberdade do descompromisso que a infância tem e que, sem que notássemos, foi sendo mudada.

Minha dor no coração é genuína, torcendo para que tenhamos mais princesas de conto de fadas e menos musazinha fitness."

 

Beatriz Pagnanelli Van Sebroeck - Nutriticionista, Mestre em Processos midiáticos: jornalismo e entretenimento (Fundação Casper Libero)

Estilo de vida "saudável"?
Estilo de vida "saudável"?
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