Compare o rótulo! Glúten free é bom pra quem?

Por LRMF, profissional da área de alimentos.

Num destes dias as manchetes dos jornais, depois de muito criticar o tal do “glúten” informavam que o consumo de produtos isentos de glúten, aumentariam a probabilidade de desenvolvimento de diabetes tipo II.

Não sei ao certo a veracidade da notícia e não tenho expertise para abordar as questões relacionadas à nutrição. Mas o que me chama a atenção é a solução que os profissionais da indústria de alimentos encontraram para atender a demanda do mercado “Glúten Free”, “Sem Glúten”, ou outras denominações. Mercado este impulsionado por profissionais especialistas.

As indústrias nada mais fazem do que seguir as tendências de mercado: aquilo que seu consumidor “pede”. Sendo a demanda: encontrar com facilidade produtos sem glúten, a indústria desenvolveu e colocou à disposição dos consumidores produtos livres dele.

Infelizmente, quando estes produtos são desenvolvidos, a preocupação maior é tecnológica, que o produto final tenha características organolépticas que agradem o consumidor. Pouco se sabe e ainda menos se estuda sobre a relação de novos compostos, ingredientes e/ou formulações de produtos com a saúde.

Por vezes, se desenvolve produtos sem saber o que os mesmos podem causar na população. O grande problema está no que se coloca na formulação quando se retira um ingrediente.

O glúten, proteína presente nos grãos como trigo, aveia, cevada e centeio, tem a função de deixar a massa mais elástica e resistente, e ajudar no crescimento de pães e bolos, deixando-os fofinhos e macios.

Por isso nós, os engenheiros de alimentos, quando temos o desafio de retirar glúten dos produtos alimentícios, buscamos tecnologias alternativas que deixem os pães fofinhos e macios, ou que dêem estrutura rígida ao macarrão e biscoitos, e a questão nutricional acaba sendo esquecida, ou simplesmente deixada de lado.

Muitas vezes, produtos como esses (uma alternativa ao tradicional “maléfico”) são menos saudáveis que a versão regular, e os consumidores se enganam com os atrativos da embalagem, por não saberem o que estão comendo.

 

Veja a composição de alguns nutrientes dos exemplos à seguir:

Farinha de Trigo e Farinha sem glúten

Ingredientes Farinha de trigo: Farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico.

Ingredientes Farinha sem glúten: Farinha de arroz, fécula de batata, fécula de mandioca e estabilizante INS 415.

Veja bem, a farinha sem glúten, embora tenha praticamente a mesma quantidade de carboidratos, contém bem menos nutrientes, 38% menos de proteínas, 10 vezes menos de fibra e, observem a quantidade de sódio!

Biscoito sem recheio sabor maçã e canela

Ingredientes biscoito glúten free: Amido modificado, farinha de arroz, maltodextrina, gordura de palma, fécula de mandioca, maçã desidratada em flocos, sal refinado, canela em pó, aromatizante, fermentos químicos (bicarbonato de amônio e bicarbonato de sódio), emulsificante lecitina de soja, regulador de acidez ácido lático e edulcorante artificial sucralose.

Ingredientes biscoito tradicional: Cereais 60% [Farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico e cereais integrais 41% (Farinha de trigo integral, aveia em flocos, farinha de centeio e farinha de cevada)], açúcar, óleo vegetal, maçã, minerais: magnésio e ferro, sal, canela, vitaminas: vitamina E, vitamina B3 e vitamina B1, aromatizantes, fermento químicos: bicarbonato de sódio, pirofosfato dissódico e bicarbonato de amônio e emulsificantes: lecitina de soja e ésteres de ácido diacetil tartárico e mono e diglicerídeos.

E nesses biscoitinhos sem glúten indicados para o café da manhã, 100% dos carboidratos são açúcares, não contêm fibras, as proteínas também foram duramente reduzidas (80% menos), e o sódio mais uma vez marcando seu território.

Macarrão penne

Ingredientes macarrão de milho: Farinha de milho.

Ingredientes macarrão grano duro: Sêmola de trigo durum.

As massas, tão tradicionais!  Com 3 vezes menos de proteínas, 8% menos de fibras e 7 gramas a mais de carboidratos que o penne de grano duro, este é o macarrão de milho. Vale à pena consumir uma pasta grudenta, mole e sem gosto perdendo a oportunidade de consumir um pouco mais proteínas de origem vegetal do produto original?

Veja bem, quem desenvolve os produtos contidos nesses pacotinhos lindos e atrativos, são engenheiros e químicos que sabem muito bem como garantir vários aspectos tecnológicos dos alimentos como: textura, sabor, aroma, inocuidade, validade e mais uma lista enorme que aqui não vem ao caso. O principal foco das indústrias são os cuidados que envolvem a qualidade do produto e não de quem os consome.

Leia os rótulos: listas de ingredientes e, as tabelas de nutrientes e se ainda tiver dúvidas, fale com a empresa que os produziu. Saiba o que contêm os produtos alimenticios processados, principalmente os que alegam algum benefício ou redução de glúten, açúcares e gorduras.

Tomara as “nonas” não entrem na onda do glúten free e continuem com a consciência tranquila nos servindo uma bela massa com grano duro e bracciola com molho de tomate, e deixem a restrição ao glutén àqueles que realmente precisam.

 

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